Para alguns, pode ser apenas um assunto de quem gosta de conteúdos de coaches. Mas o criador da Teoria da Permissão, Elton Euler, vem desestabilizando a rede que envolve a ciência quando provoca cientistas a olhar para o trabalho que tem desenvolvido, desde cura de doenças à recuperação financeira, restauração de laços familiares e outros ajustes necessários nas relações humanas.
Eu, como Cientista Social, não posso deixar de olhar para esse coletivo como um objeto de estudo. Tenho visto esse movimento levantando controvérsias e com potencial para abalar paradigmas não só da psicologia e neurociência, mas das ciências humanas, pois tem vários desdobramentos na vida individual e que podem levar a mudanças sociais..
Numa perspectiva latouriana, todo evento é mantido por uma rede de atores que têm interesse em mantê-lo ali. Em qualquer situação, teremos atores humanos e não-humanos agindo e afetando a realidade e sendo afetado por ela. Para Latour, a ‘sociedade’ não é uma coisa pronta, mas uma associação constante de elementos. Quando aplicamos a lente de Latour sobre os métodos de Elton Euler, a Teoria da Permissão se revela um laboratório sociológico fascinante. Os conceitos trabalhados na Aliança Divergente demonstram, na prática, que doenças, culpa ou o medo, laços familiares e até mesmo dívidas financeiras são ações produzidas pelo inconsciente individual em cada situação para produzir a realidade que “precisa, permite e prefere”. Nada é por acaso, nem sorte ou azar. Os acontecimentos, são produtos do inconsciente que operam e exercem força para manter a rede unida e impedir que os indivíduos mudem de posição dentro dela. Problemas como desemprego de um parente, por exemplo, seria útil para ou unir, ou afastar, ou punir ou se vingar de alguém ligado à rede, e se afeta com eventos que acontecem com os fazem da rede de atores.
Enxergo aqui uma provocação para as ciências sociais: e se aplicarmos essa mesma lupa aos problemas coletivos? A desigualdade social, a violência e a pobreza seriam também ‘actantes’ mantidos por uma rede que lucra com a sua estabilização? Talvez o potencial analítico desse método vai muito além do indivíduo.
Contextualizando, Elton Euler, criador da Teoria da Permissão, atraiu pessoas que viram sentido em sua tese, e que aplicaram o método proposto nas suas relações e, vivenciaram os efeitos: conseguiram reverter situações financeiras desacreditadas, curar doenças, salvar relacionamentos de diversos tipos, deslanchar carreiras profissionais etc. Esse grupo já se chamou GPS (Grupo de Permissão Superior) e atualmente é a Aliança Divergente. Não é uma nova religião. Nem é uma seita. Elton Euler não aborda nada sobre física quântica, nem orações, banho de folhas, rituais, ofertas ou sacrifícios. Os participantes se reconhecem como uma comunidade que vive de uma forma “divergente”. Lembrando que, embora o movimento divulgue gratuitamente todo esse conteúdo, para fazer parte da comunidade como mentorado, se investe um valor que dá acesso a uma plataforma com vários recursos para se aplicar melhor o método, além de ter acesso à comunidade como um todo, grupos de WhatsApp, reuniões online e acesso exclusivo a reuniões presenciais. Dados interessantes: a rede social de Elton Euler possui 3.801.625 seguidores (março de 2026), o Instagram da Aliança Divergente conta com cerca 336 mil seguidores (março de 2026, no Youtube, são 96,7 mil inscritos (março de 2026);
Com base em análise do inconsciente e na inteligência relacional, Elton Euler cria o conceito de Permissão: a vontade inconsciente para ser, fazer, ir ou estar. Dessa forma, a teoria oferece protocolos estruturados para que a pessoa perceba e corrija suas ações e tome nova postura diante das problemáticas dos relacionamentos, alcançando graus de autonomia a medida que faz os protocolos para relacionamentos e acontecimentos. É definida uma escala da postura onde o individuo percebe em que grau de amadurecimento está.
Portanto, a Aliança Divergente basicamente é a comunidade que vive conforme a Teoria da Permissão. O que a teoria propõe é outra maneira de se relacionar, impondo limites para que as pessoas tenham mais autonomia nas decisões, estabelecendo metas de vida. Uma das premissas da teoria é que, para que as relações tenham vínculos fortes, elas precisam de limites bem estabelecidos. Com isso, vínculos de dependências emocionais se diluem.
Dependência emocional é outro conceito-chave na Teoria da Permissão. O autor a define como sendo quando o estado emocional de uma pessoa depende do estado emocional de outra pessoa. Para ele, a dependência emocional é um vínculo que pode funcionar como linhas invisíveis que impedem a pessoa de ter uma vida plena, com conquistas pessoais, sem chantagens emocionais, sem culpa ou qualquer outro tipo de dívida emocional. Na Aliança Divergente, não existe acaso, tudo está interligado pelos relacionamentos; os acontecimentos são criados por nós mesmos para atender a uma vontade inconsciente. Todo acontecimento que te impactou foi produzido pelo seu inconsciente. Portanto, doença e acidente não são eventos que acontecem ao acaso, eles têm utilidade, não são apenas um mero problema. Todo problema tem a utilidade de unir, afastar, punir ou poupar alguém dentro desse sistema.
Para a sociologia clássica, fundamentada por Émile Durkheim, fenômenos como crises financeiras, dinâmicas familiares e até os padrões de adoecimento são frequentemente analisados através do conceito de “fato social”. Fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir que são exteriores ao indivíduo e que exercem um poder de coerção sobre ele. Em outras palavras, são as regras, as expectativas e as pressões da cultura que já existem antes de nascermos e que se impõem sobre nós, independentemente das nossas vontades isoladas.
Quando os cientistas sociais tradicionais olham para esses fatos sociais, eles são orientados a tratá-los como “coisas”, objetos de estudo objetivos que devem ser analisados à distância. A busca é sempre por entender como a estrutura coletiva (a economia, as instituições, o patriarcado) molda, direciona e muitas vezes oprime o sujeito. Nessa lente clássica, uma falência ou um problema crônico são lidos predominantemente como consequências do meio, onde a pessoa é frequentemente vista como refém ou ponto de impacto de forças estruturais maiores que ela.
No entanto, é aqui que a Teoria da Permissão, sob a lente da sociologia das associações de Latour, causa o seu maior curto-circuito ao conectar o micro ao macro. Onde o problema de saúde pública ou a crise econômica se encontram com a utilidade inconsciente do indivíduo? Na busca por um álibi estrutural. Nessa nova perspectiva, a doença crônica ou a falência não são apenas estratégias de estabilização da própria rede familiar ou pessoal; elas são a apropriação perfeita dos problemas macroeconômicos e sociais para legitimar a estagnação. Se um indivíduo tem a utilidade inconsciente de fechar um comércio para fugir de uma pressão, a “crise econômica” atua como o actante não-humano que valida essa falência sem que ele precise carregar a culpa do fracasso. Da mesma forma, se o ego precisa frear o próprio crescimento para não romper com a família, ele recruta as vulnerabilidades biológicas e o adoecimento coletivo (a saúde pública) para criar um obstáculo físico inquestionável. Nessa perspectiva, o macrocenário cultural e estrutural oferece a prateleira de “desculpas perfeitas” e culturalmente aceitas para que o indivíduo não precise assumir a responsabilidade pela sua própria paralisia.
O que a Teoria da Permissão nos revela é que o inconsciente do indivíduo se apropria de uma estrutura cultural que valida maneiras de se relacionar, para justificar suas ações, sentimentos e acontecimentos.
Segundo a Teoria da Permissão, as decisões de alguém e suas ações dependem do estado ou da ação de outra pessoa. Por exemplo, deixar de fazer algo de que gosta para não decepcionar alguém. Aí entra a culpa ou o medo; ou seja, a pessoa começa a se responsabilizar pelo bem-estar da outra, cuidando para que a outra não fique triste por ela escolher algo diferente do que ela queria.
Isso pode ser considerado como algo reflexo da nossa cultura, onde a ideia de ser um “bom filho” é obedecer cegamente aos pais, anulando seu próprio querer e não questionando-os, sem diálogos. Esse tipo de dependência pode aparecer também em relações de amizade ou mesmo nos negócios.
Fica nítido como é comum na cultura das relações, por exemplo, que uma mãe seja dominadora a ponto de, mesmo que seus filhos sejam adultos, ela insistir em não soltar as rédeas da vida deles; e os filhos permitirem essa situação. Quando esses filhos se casam, a mãe começa a disputar com a companheira ou companheiro. Muitas têm dificuldade de aceitar que seus filhos possam garantir às suas novas famílias uma vida confortável, como a que ela própria não teve. Querem decidir como a casa do filho deve estar organizada, como criar os netos, ou mesmo ditar como devem se comportar. Geralmente, esses filhos (homens ou mulheres), mesmo depois de casados, mantêm a mãe como a figura mais importante da vida, gerando um vínculo sem limite onde não podem seguir a vida com novas regras e acordos porque a mãe ficará decepcionada ou triste.
Nesses cenários tão comuns, ficam evidentes os perfis de comportamento mapeados pela Teoria da Permissão: pessoas controladoras (salvadoras ou narcisistas) que determinam que o outro sempre vai precisar delas; vítimas (naturais ou intencionais) que aceitam ser controladas pelo medo de perder a relação; e pessoas se vingando por situações do passado.
O grande trunfo dessa análise sociológica é perceber que a Teoria da Permissão atua como uma força disruptiva nessa dinâmica. O que a teoria chama de “renovação dos contratos relacionais” é, nos termos da sociologia das associações de Latour, o exato momento em que essa rede disfuncional é desmontada. Ao iluminar a ‘utilidade’ oculta do problema e quebrar padrões de forma consciente, o inconsciente deixa de criar situações que mantenham as dependências, forjando novas associações.
É por isso que, na vida prática, os resultados do método parecem tão inusitados. Se uma mãe, por exemplo, usava uma doença crônica (um actante não-humano) com a utilidade inconsciente de manter o filho perto e afastar a nora, ao renegociar esse contrato relacional, a doença perde a sua função. O inconsciente dá a permissão para que ela seja saudável e os tratamentos finalmente funcionam. Da mesma forma, se duas pessoas criaram uma dívida financeira (outro actante) como desculpa para se manterem unidas por não terem coragem de se separar, iluminar essa utilidade dilui a dívida. Sem o ganho secundário, a rede se reconfigura: ou elas se separam, ou decidem ficar juntas por escolha, assumindo a responsabilidade prática de quitar o valor.
E é exatamente aqui que a Aliança Divergente protagoniza o seu movimento mais audacioso, invadindo o território da própria estrutura acadêmica. Para Bruno Latour, a ciência não é uma entidade mágica que desce dos céus com a verdade absoluta; ela é uma arena política e relacional. Fatos científicos não nascem prontos; eles são construídos (fabricados) em laboratórios através do recrutamento de aliados (outros cientistas, financiadores, publicações). Um fato só vira “verdade” inquestionável (o que Latour chama de “caixa-preta”) quando a rede ao redor dele se torna forte o suficiente.
Sabendo que a academia costuma rechaçar saberes que nascem fora de seus muros, Elton Euler inverteu a lógica: ele desafiou a ciência a estudá-lo. Atualmente, o movimento conta com uma neurocientista mapeando 15 casos de sucesso clínico e financeiro, selecionados pelos próprios participantes. Ao fazer isso, um ator “outsider” monta o seu próprio laboratório e tenta traduzir o seu método empírico para o idioma oficial da neurociência. O objetivo declarado de Euler? Um Prêmio Nobel. O que poderia soar como delírio para os puristas é, na verdade, a Teoria Ator-Rede acontecendo em tempo real: a tentativa de alistar a ciência tradicional como aliada para estabilizar um novo paradigma.
A força do movimento de Elton Euler está em executar, de forma empírica, a desconstrução estrutural que Latour teoriza. Quando a Teoria da Permissão ensina indivíduos a mapearem as utilidades de seus próprios fracassos e a demitirem os perfis controladores, ela está operando a Teoria Ator-Rede na vida real: ensinando as pessoas a desmontarem a velha rede e a construírem associações mais saudáveis. Para a sociologia contemporânea, ignorar a eficácia prática desse fenômeno por mero preciosismo acadêmico seria um erro fatal. Afinal, a ciência só evolui quando tem a coragem de olhar para as controvérsias.
